"Perícia de R$ 790 mil fará pente-fino na Santa Casa para identificar origem de rombo milionário".

Trabalho pericial deve mapear a situação financeira do hospital e identificar fatores que contribuíram para o desequilíbrio nas contas.

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Foto-Divulgação.

Perícia judicial vai vasculhar finanças da Santa Casa em meio à maior crise da instituição.


A grave situação financeira enfrentada pela Santa Casa de Campo Grande, considerada uma das mais importantes unidades hospitalares de Mato Grosso do Sul, deve ser submetida a uma ampla investigação técnica determinada pela Justiça.

Em meio a um cenário marcado por dificuldades econômicas, aumento expressivo do endividamento e questionamentos sobre a administração dos recursos disponíveis, uma perícia especializada iniciará uma análise detalhada das contas da instituição.

O trabalho será realizado pela empresa GRC Vista, contratada por determinação judicial, e terá custo estimado em R$ 790 mil, valor que será custeado pelo Governo do Estado. A equipe de especialistas terá a missão de responder a 119 questionamentos elaborados pelas partes envolvidas no processo, incluindo representantes do hospital, órgãos públicos e o próprio Judiciário.

A investigação financeira promete ser uma das mais abrangentes já realizadas na história da entidade. Entre os itens que serão examinados estão movimentações de 56 contas bancárias, contratos firmados com empresas prestadoras de serviços, repasses de recursos públicos e operações realizadas com organizações ligadas ao mesmo grupo empresarial. O objetivo é verificar se os recursos recebidos foram utilizados de forma adequada e esclarecer pontos que vêm sendo alvo de debates nos últimos anos.

A perícia também buscará compreender como a Santa Casa encerrou o exercício de 2025 registrando um déficit superior a R$ 124 milhões, além de um passivo financeiro que alcançou patamares considerados alarmantes. Uma das maiores preocupações diz respeito ao endividamento junto à Caixa Econômica Federal, cuja dívida acumulada já chega a cerca de R$ 248 milhões.

Divergência entre Estado e hospital
Enquanto a administração da Santa Casa sustenta que a principal causa da crise está relacionada à insuficiência dos recursos destinados ao custeio dos serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Governo do Estado apresenta uma interpretação diferente do cenário.

Documentos apresentados pela Procuradoria-Geral do Estado apontam que os repasses públicos destinados à instituição aumentaram significativamente nos últimos anos. Conforme os dados apresentados, os recursos provenientes do SUS saltaram de aproximadamente R$ 344,6 milhões em 2022 para cerca de R$ 438,7 milhões em 2025.

Apesar do crescimento das transferências financeiras, os números mostram que o passivo total do hospital também avançou de forma acelerada. As obrigações acumuladas passaram de R$ 555,7 milhões em 2023 para aproximadamente R$ 792,6 milhões em 2025, representando um aumento expressivo no período.

A direção da Santa Casa, entretanto, argumenta que os valores definidos pelo teto de financiamento do SUS não conseguem acompanhar os custos reais da estrutura hospitalar. A instituição destaca que mantém serviços de alta complexidade, pronto atendimento, atendimento de traumas e leitos permanentemente disponíveis para a população, atividades que geram despesas elevadas. Segundo o hospital, o déficit operacional mensal ultrapassa R$ 13 milhões, o que contribuiria diretamente para o agravamento contínuo da situação financeira.

Além do embate entre Estado e instituição, o Ministério Público Estadual acompanha o caso e cobra o cumprimento de compromissos assumidos anteriormente para reequilibrar as contas e melhorar os indicadores administrativos do hospital.

Investigação será dividida em várias etapas
Para garantir uma análise aprofundada, os peritos dividiram os trabalhos em diferentes frentes de investigação. Uma delas será dedicada a calcular o custo efetivo dos atendimentos realizados pelo SUS, comparando as despesas da instituição com os recursos efetivamente recebidos.

Os especialistas também deverão verificar a consistência dos números apresentados pela Santa Casa em relação ao déficit mensal alegado. A intenção é determinar se os repasses públicos são suficientes para custear a estrutura mantida pelo hospital ou se existe uma diferença significativa entre receita e despesa.

Outra etapa da auditoria envolverá um minucioso pente-fino nas movimentações bancárias da entidade. Os peritos irão analisar transferências financeiras, origem e destino de recursos, além de possíveis cruzamentos entre verbas públicas e privadas. A compra de imóveis, pagamentos efetuados para pessoas jurídicas e operações envolvendo empresas ligadas ao mesmo grupo econômico também estarão sob análise.

Em paralelo, será realizada uma avaliação da gestão administrativa da instituição. Entre os temas que serão examinados estão o cumprimento de acordos trabalhistas firmados em anos anteriores, políticas de contratação e possíveis substituições de profissionais contratados pelo regime tradicional por prestadores vinculados a empresas terceirizadas.

Operação Antidotum ampliou questionamentos
A nova perícia ocorre em um contexto de forte repercussão provocado pelas investigações conduzidas pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul. A situação ganhou ainda mais destaque após a deflagração da Operação Antidotum, realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc).

Durante a operação, foram cumpridos mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em Mato Grosso do Sul e também no Estado de Goiás. As investigações apuram suspeitas de irregularidades em contratos firmados pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, entidade responsável pela administração do hospital.

Entre os pontos investigados está um contrato relacionado à digitalização de prontuários médicos. Segundo os investigadores, foram identificados indícios de pagamentos elevados por serviços que, em tese, não teriam sido executados integralmente.

As apurações também apontaram possíveis irregularidades em contratos mantidos pela operadora Santa Casa Saúde com empresas que possuíam vínculos com integrantes da alta administração da instituição. Conforme informações divulgadas pelos órgãos de investigação, algumas dessas empresas estariam registradas em um mesmo endereço, que não apresentava atividade compatível com os serviços contratados.

Diante desse cenário, a perícia judicial passa a ser vista como uma etapa decisiva para esclarecer a real situação financeira e administrativa do maior hospital de Mato Grosso do Sul. A expectativa é que o levantamento técnico apresente respostas detalhadas sobre a origem do déficit milionário, a aplicação dos recursos públicos e a condução da gestão da instituição nos últimos anos.

Assessoria de Imprensa do CAPITAL DO MS NEWS.