Investigação aponta que policiais recebiam para espionar inimigos do tráfico em MS.
Investigação aponta que agentes utilizavam informações privilegiadas para monitorar grupos rivais do tráfico e favorecer organização criminosa em Mato Grosso do Sul.
Foto-Jornalista Jocemar Gutierres do CAPITAL DO MS NEWS.
Operação Infiltrados revela suspeita de uso da estrutura policial para favorecer organização criminosa em MS.
As investigações que deram origem à Operação Infiltrados apontam para um suposto esquema de colaboração entre integrantes das forças de segurança e membros do tráfico de drogas em Mato Grosso do Sul.
Conforme os elementos reunidos pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), policiais teriam utilizado recursos e sistemas oficiais do Estado para monitorar a movimentação de criminosos rivais, favorecendo interesses de uma organização envolvida com o narcotráfico.
A ofensiva foi desencadeada na quinta-feira (24) e contou com a participação das corregedorias das polícias Civil e Militar. Ao todo, foram cumpridos 24 mandados de prisão preventiva, além de diversas ordens de busca e apreensão em diferentes endereços ligados aos investigados.
De acordo com a apuração, um dos personagens centrais do caso é Lucas da Silva dos Santos, conhecido pelo apelido de “LK”. Os investigadores afirmam que ele teria estabelecido uma parceria com agentes de segurança, incluindo policiais militares e um policial penal, para acompanhar os passos de um traficante que atuava em Campo Grande.
Segundo os documentos reunidos durante a investigação, os suspeitos utilizavam ferramentas restritas da segurança pública para obter informações sobre veículos ligados aos alvos monitorados.
Além das consultas em sistemas oficiais, também teriam sido colocados rastreadores com tecnologia GPS nos automóveis, permitindo acompanhar deslocamentos em tempo real sem o conhecimento dos motoristas.
O Ministério Público investiga se essa vigilância clandestina era utilizada para identificar cargas de drogas e movimentações de traficantes concorrentes. A suspeita é de que essas informações fossem compartilhadas para beneficiar o grupo criminoso que mantinha ligação com os agentes investigados.
O relacionamento entre integrantes das forças de segurança e traficantes, no entanto, não teria se limitado à troca de informações. A investigação aponta para uma relação mais profunda, envolvendo supostos repasses financeiros e favorecimentos mútuos ao longo dos anos.
Um dos episódios destacados pelas autoridades remonta a 2021, quando Lucas da Silva dos Santos foi conduzido à Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) por acusações de desobediência e desacato.
Na ocasião, não houve apreensão de entorpecentes. Entretanto, após esse episódio, a apuração identificou movimentações bancárias que levantaram suspeitas, incluindo depósitos efetuados por LK para a conta de um policial civil que também figura entre os alvos da Operação Infiltrados.
Outro ponto investigado envolve o possível desvio de entorpecentes apreendidos em ações policiais. Conforme os relatórios analisados pelo Gaeco, integrantes da organização criminosa teriam negociado o acesso a grandes quantidades de drogas que estavam sob custódia de policiais investigados.
Um dos casos citados ocorreu em dezembro de 2022. Segundo a investigação, Edmilson Santos Pereira, apontado como liderança de uma facção associada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), teria solicitado ajuda a LK para recuperar cerca de 326 quilos de cocaína que estariam sob responsabilidade de três policiais civis.
Os agentes mencionados no procedimento são Neverson Vieira de Araújo, Nilton César Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva.
Os investigadores também relatam que, semanas antes desse episódio, os mesmos policiais teriam oferecido aproximadamente 30 quilos de pasta-base de cocaína, oriundos de uma apreensão, aos irmãos Edmilson e Itamar dos Santos Pereira. A suspeita reforça a linha de investigação de que parte do material recolhido em operações oficiais poderia estar sendo desviada para abastecer grupos criminosos.
Durante o cumprimento dos mandados, ao menos nove agentes que estavam na ativa foram presos. Entre os nomes divulgados estão Douglas Tobias, Neverson Vieira de Araújo, Nilton César Sales dos Santos, Augusto Torres Galvão Florindo, Nelson Ricardo Barros de Oliveira e outro policial identificado apenas como Luiz.
Já Roberto Palmeira da Silva não foi localizado durante as primeiras diligências. Conforme informações apresentadas por sua defesa, ele estaria em recuperação após passar por um procedimento cirúrgico e deveria se apresentar às autoridades posteriormente.
Outro alvo da operação foi Hoffman D'Ávila Cândido e Souza, que exercia a função de delegado da Denar no período em que o suposto esquema teria começado a se estruturar. Inicialmente ele não foi encontrado pelas equipes responsáveis pelo cumprimento dos mandados, mas compareceu posteriormente à Corregedoria da Polícia Civil, onde permaneceu preso.
Também chama atenção o caso de Augusto Torres Galvão Florindo, que já havia sido detido anteriormente. Em novembro de 2025, ele foi preso em flagrante após ser encontrado com cerca de R$ 130 mil em dinheiro. Na época, a suspeita era de que o valor tivesse ligação com mercadorias desviadas do Garras. Posteriormente, ele acabou sendo exonerado do cargo.
Em manifestação oficial, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informou que os servidores investigados já eram acompanhados pelas corregedorias competentes e destacou que alguns deles já haviam sido presos em investigações anteriores.
A pasta afirmou que não tolera desvios de conduta nem práticas criminosas por parte dos integrantes das forças de segurança.
A secretaria também ressaltou que todos os fatos serão apurados de forma rigorosa, observando o devido processo legal e garantindo aos investigados o direito à ampla defesa e ao contraditório durante o andamento das apurações.
Assessoria de Imprensa do CAPITAL DO MS NEWS.